terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Complicadamente simples!

Tia-mãe Vitória
Este ano, fomos passar o Natal na casa da minha tia-mãe Vitoria.

Muitas das vezes, sinto uma grande tensão cultural. Sinto que sou culturalmente desadequada, como alguém que não pertence a lado nenhum...

Venho de uma herança familiar angolana, com raízes no Norte do país. Por isso, somos tribalmente conhecidos como Bakongo. 

Vim para Portugal com 3 anos e cá fiz toda a vida. Nas raras vezes que fui, não me consegui conectar a nada.

Fui criada no meio da cultura angolana, com as suas raízes, tradições, maneirismos, e na cultura europeia/ ocidental, com a sua forma de pensar e analisar as coisas. 
A minha mentalidade/ forma de pensar/ etc está sempre em constante tensão!

Há a tensão de ser aglutinado, de viver a família e a cultura intensamente, de não fazer perguntas ao que já está estabelecido há muitos anos ("desde que o mundo é mundo que fazemos as coisas assim"), pôr a família sempre em primeiro lugar, a autoridade dos pais (independentemente das suas decisões)...
Depois há a tensão do não incomodar, não mexer em assuntos "delicados" (mesmo que hajam décadas de companheirismo), esperar convite, não invadir o espaço do outro, "não respirar fora do tempo"...

E isso é complicado!
Muita das vezes não sei mesmo como me comportar!

E o Natal trouxe isto ao de cima. 
Quando cheguei à casa da minha tia-mãe, não sabia como me comportar. 
Primeiro porque na casa de uma mãe angolana, as mulheres sempre fazem tudo e não se espera por "convite" ou solicitação. 
Se há mulheres a cozinhar, tu juntaste a elas e cozinhas também ou aprendes a chegar ao tempero certo.  Abres os armários, panelas, frigoríficos, dispensas e etc que tiveres de abrir, sem convite. Limpas e arrumas o que estiver sujo e desarrumado. Mesmo que coloques fora de ordem, o importante é estar limpo!
És muito pro-activa (e é isso o esperado para seres também considerada uma boa mulher). 

Neste momento temos duas bebés na família. 
A baby Ash (de três meses, filha da minha madrinha, Lia) e a Lorena (de 6 dias, filha do primo Gar e da Leila). 

Foi muito bonito ouvir e ver a minha mãe e tia-mãe a aconselhar a Leila sobre o pós-parto, rotinas do bebé, alimentação, cuidados com o frio de uma forma simples e natural. 
A Leila tinha pouco leite, então a minha tia deu-lhe a comer alimentos que aumentam a produção do leite. E foi instantâneo!
No dia seguinte ela já estava a produzir mais quantidades de leite. 
Mas enquanto ela não tinha leite, a Lorena mamou do peito da Lia!
A doce e simpática baby Ash

Enquanto a Leila tentava descansar, as primas foram cuidado da Lorena, cuidaram do banho. 
A Lia, mãe (só) com alguns meses de experiência, ensinou e explicou o que ela fazia para cuidar da filha, principalmente na limpeza do umbigo e etc. 
E neste cenário, estavam umas 6 pessoas no quarto da bebé!

Havia muito ruído, havia barulho mas também havia a comunidade, a pertença, a família. 
Porque tudo se vive em família e na família estamos sempre, sempre uns para os outros.

Depois disso fiz o contraste com alguns bebés que tive a oportunidade de acompanhar e, meu Deus, como eu gosto da simplicidade e da naturalidade das coisas na minha cultura.
Ter filhos é a coisa mais natural do mundo e cuidar deles ainda mais!
Sem dramas, sem tecnologias, sem complicações.

O complicadamente simples é encaixar isso tudo...

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