Eu e o M conhecemo-nos no meu primeiro ano de faculdade.
Eu entrei em Administração Pública e ele já estava a fazer o segundo ano de Antropologia.
Ele era um grande amigo da Rute que era minha colega é coisa puxou coisa, começamos a socializar e somos amigos até hoje.
Já lá vão 7 anos.
Eu gosto muito do M.
Caminhamos juntos nas fases mais complicadas da vida dele e permanecemos juntos.
Ontem tivemos uma conversa meio "estranha", mas que também me elucidou para a forma como as pessoas em geral vivem e pensam.
(É que ultimamente tenho estado a constatar que passo muito tempo na minha bolha.
Trabalho com crianças, com um computador e com vários cristãos. Os meus núcleos envolvem cristãos. Por isso, com mais ou menos nuances pensamos todos da mesma forma)
Ontem o M. ficou muito espantado por ter 25 anos e ainda não ter tido nenhuma experiência sexual com ninguém e guardar esse momento para o casamento.
Ele ele perguntava-me:
- Atão, mana, e se quando chegares lá perceberes que não gostas?
- Sabes, eu nunca estive com ninguém. Não tenho termo de comparação, por isso, para mim vai ser sempre bom.
- Não, mas... Pois... Mas podes vir a não gostar na mesma. Vocês podem não se dar bem, a coisa pode correr mal...
- Lá está, eu pensaria nessas coisas todas se já tivesse algo para comparar. Mas não tenho. E se mesmo assim a coisa correr mal, nós iremo-nos adaptar um ao outro.
- E estas disposta a correr esse risco? É que assim é uma grande frustração...
- Sim, estou disposta a correr esse "risco". Mas vê comigo, para mim isso nem vai ser um problema. E mais, ao casar com alguém tu pressupões que queres viver o resto da vida com essa pessoa, então é bom que ames essa pessoa e aprendas a adaptar-te a ela. E não é só na área do sexo!
Há muito mais...
- Pois, mas o sexo é muito... Ó mana, quantos anos tens mesmo?
- 25
- 25 anos e nunca te deitaste com ninguém? Olha, vou te dar um conselho que me deu a minha psicóloga: Os indivíduos a partir dos 18 anos têm de experimentar tudo o que quiserem. Tem de ter todas as experiências sexuais que quiserem para poderem definir a sua identidade e para não chegarem aos 40 frustrados.
Por isso, experimenta.
- Desculpa, então o que queres dizer?
- Que tens de experimentar antes de te casares para não chegares aos 40 e seres uma quarentona frustrada!
- Ok. Então vendo por essa perspectiva, uma vez que tenho 25 anos e sem nenhuma experiência já sou uma frustrada?
- Sim. E que provavelmente não sabes quem és...
- Desculpa??
- Sim, a nossa sexualidade define a nossa identidade!
- O quê? M. desculpa lá!!
Então quer dizer, eu sou a Isabel porque sou heterossexual?
- Não é por seres hetero...
- Ok, então tu és o M porque és homossexual?
- Pois claro!
- Então desculpa, mas isso é que é ser muito triste e frustrado.
Quer dizer que o meu valor intrínseco está baseado diretamente na minha sexualidade e todas as outras partes que fazem de mim um indivíduo não contam?
Se eu vivesse assim é que seria uma ganda frustrada!
- Quer dizer, a sexualidade não define tudo. Mas define uma grande parte de ti...
- Então eu sou a Isabel por ser heterossexual e pelo número de parceiros que já tive?
- ...
- Então se as coisas são assim, eu sou muito mais feliz por ter a liberdade de escolher viver como quero. Mesmo que implique não me deitar com ninguém.
E tambem escolho arriscar ser uma quarentona frustrada!
- Aí mulher... Tu não és normal!
Tens a certeza que não és assexuada?
A conversa continuou...
Mas ficou o ponto de interrogação na minha cabeça:
Baseados em que estudos as pessoas dizem essas coisas?
Desde quando é que eu sou o que sou porque a minha sexualidade assim o diz?
Todos os indivíduos são indivíduos por causa da sua sexualidade, onde fica o resto? Onde ficam as capacidades? Onde ficam as crenças? Onde ficam as idéias? Onde ficam os traços particulares do indivíduo?
Apregoamos a liberdade mas nós mesmos é que nos castramos...
Pensar assim é bué castrador...
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