quarta-feira, 20 de abril de 2016

Justiça

O blogue da Bianca me tem desafiado muito.
Desafiado a ir mais longe, a viver, a colaborar de forma consciente e pro-ativa. 

Tem me lembrado dos meus sonhos de adolescente, me tem causado um grande sentimento de descontentamento. 

Leio as palavras dela e penso "tem de haver mais. Tem de haver outra alternativa. Alguma coisa tem de ser possível"

Leio as histórias feias e que incomodam, daquelas que me fazem não querer ver o telejornal ou mesmo ver televisão; leio histórias nas quais revejo-me e me apetecem nadar o Atlântico e ir ao Brasil abraçar e cuidar dessa ala do hospital. 

Depois, olho para a minha realidade, lá no bairro. 
E penso "fogo, o que não me faltam são histórias dessas". 
Ainda hoje lembro-me com muitas saudades do S e da L. 
Dois irmãos que eram vítimas de agressões físicas e abuso sexual e foram retiradas do bairro, no verão passado. 
Lembro-me das primas L e N, que também foram vítimas de abuso sexual, que descobri em novembro passado. 
Lembro-me do I, vítima de abuso sexual, descoberto há 3 anos.  
Lembro-me do R, também vítima de abuso sexual pelo padrasto e abandono pela mãe, descoberto há coisa de 5 anos e num longo processo de recuperação. 

Já "perdemos" 5 miúdos... Todos eles foram retirados do bairro e, por consequência, da nossa instituição...

Há dias em que viver o serviço social é demasiado duro. 
Manter a firmeza e a calma em frente aos miúdos e ter o coração despedaçado por dentro parece demasiado duro.
Sorrir, brincar, ensinar, ouvir e avaliar quando a garganta está seca e as lágrimas insistem em rolar parece demasiado duro. 
Manter a postura e profissionalismo quando a vontade é pegar neles e levá-los para casa, cuidar e proteger parece demasiado duro. 

Há que aguentar. 

Mas o que nos resta se não ter esperança?
Esperança que naquelas horas que eles passam connosco eles podem viver (minimamente) o que é ser família. 
Esperança que naquelas horas que eles passam connosco podem ser crianças e sentirem-se completamente seguros. 
Esperança de que algo de bom está a ser investido nas suas (ainda) curtas vidas e que um dia podem vir a produzir frutos. 
Esperança de que naquelas horas eles podem contar como correu o dia...

Resta-nos ter esperança...

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