Normalmente, só escrevo sobre as minhas dores quando elas já passaram.
Só me expresso quando tudo já passou. Porquê?
Porque ao longo da vida aprendi a viver as minhas dores sozinha.
Viver tudo muito dentro de mim, dentro da minha cabeça e também me refugiando na oração. Usando a oração como subterfúgio para dor, criando um ídolo. Um deus à minha imagem e semelhança, em quem posso mandar, a quem posso manipular e regatear (mas este é outro assunto…)
E (muitas vezes) nem na própria oração eu me escondia. Porque dói. E eu não sei lidar…
Quando dói é muito assustador para mim.
Eu não sei viver estas coisas. Eu não sei verbalizar. Então eu encolho-me.
Guardo para mim e escondo-me no cordial “está tudo bem”. Para toda a gente… e aqui também devo incluir o meu marido.. que até dele eu fujo… é mesmo complicado…
Como uma avestruz, eu afundo a cabeça na terra, ou paraliso.
Passo um bocado e venho ao cimo, luto, falo, expresso-me mais um bocado…
Neste processo de metanoia (mudança de mente), Deus tem me falado muito sobre Corpo, comunidade, ouvir e obedecer. E a minha comunidade de fé também está nesse processo.
No domingo, eu vivi algo que foi como uma lufada de ar frio: eu abri a minha vida e o lugar da minha dor e pude receber algo que eu devo encontrar no seio do corpo: amparo, consolo, abraço amigo (nem sei se posso usar dois pontos dessa forma).
O Corpo pode ser comigo e viver comigo aquilo que a palavra diz que tem de ser “sofrer comigo a dor de um membro”.
Como que se eu, uma célula, estivesse a não viver o ciclo do cancro…
Na minha experiência, isso foi redentor, isso foi miraculoso. No meio do ordinário, do comum. De outras células, como eu, trazerem-me saúde e bloquearem o crescimento de tecido anómalo à minha volta…
Como cantou a Marcela Taís, da música da minha espera, sou paciente e tenho de ser paciente…
Marcela Taís - Paciente
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Expressar? É em baixo