terça-feira, 8 de novembro de 2022

Eu não sei lidar…

Eu sei não lidar muito bem com as minhas dores…

Normalmente, só escrevo sobre as minhas dores quando elas já passaram. 
Só me expresso quando tudo já passou. Porquê?

Porque ao longo da vida aprendi a viver as minhas dores sozinha. 
Viver tudo muito dentro de mim, dentro da minha cabeça e também me refugiando na oração. Usando a oração como subterfúgio para dor, criando um ídolo. Um deus à minha imagem e semelhança, em quem posso mandar, a quem posso manipular e regatear (mas este é outro assunto…)
E (muitas vezes) nem na própria oração eu me escondia. Porque dói. E eu não sei lidar…

Quando dói é muito assustador para mim. 
Eu não sei viver estas coisas. Eu não sei verbalizar. Então eu encolho-me. 
Guardo para mim e escondo-me no cordial “está tudo bem”. Para toda a gente… e aqui também devo incluir o meu marido.. que até dele eu fujo… é mesmo complicado…

Como uma avestruz, eu afundo a cabeça na terra, ou paraliso. 
Passo um bocado e venho ao cimo, luto, falo, expresso-me mais um bocado…

Neste processo de metanoia (mudança de mente), Deus tem me falado muito sobre Corpo, comunidade, ouvir e obedecer. E a minha comunidade de fé também está nesse processo. 

No domingo, eu vivi algo que foi como uma lufada de ar frio: eu abri a minha vida e o lugar da minha dor e pude receber algo que eu devo encontrar no seio do corpo: amparo, consolo, abraço amigo (nem sei se posso usar dois pontos dessa forma). 
O Corpo pode ser comigo e viver comigo aquilo que a palavra diz que tem de ser “sofrer comigo a dor de um membro”.
Como que se eu, uma célula, estivesse a não viver o ciclo do cancro…

Na minha experiência, isso foi redentor, isso foi miraculoso. No meio do ordinário, do comum. De outras células, como eu, trazerem-me saúde e bloquearem o crescimento de tecido anómalo à minha volta…

Como cantou a Marcela Taís, da música da minha espera, sou paciente e tenho de ser paciente…



Marcela Taís - Paciente

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