sábado, 11 de março de 2017

(Numa de) Professora Belinha #19

 
Estamos a travar uma luta contra as más notas. Os miúdos tiveram péssimos resultados no primeiro período. 
E quando digo péssimas notas não estou a exagerar. 
Até os bons alunos baixaram as notas (alguns deles calharam em turmas péssimas). 

Desde o final do primeiro período que tenho estado a agir como um sargento mau no campo da recruta. 
Estou a ser muito dura com eles, não estou a dar abébias nenhumas aos miúdos. 
Estão todos sobre vigilância constante. 

Um dos miúdos, o Januário, conseguiu tirar negativa a quase tudo. Só não teve negativa a educação física, de resto, foi tudo corrido a negativa. 
Para além das notas muito más, tinha muitos recados na caderneta por mau comportamento e faltas disciplinares. 

Então ele, por exemplo, está de castigo a sério. Ando em cima dele todos os dias. Ele tem estudado muito. Todos os dias e a toda à hora. Ele chega à instituição e estuda, pausa para lanchar e volta a estudar outra vez. 

Qual é a parte positiva deste tratamento??
As notas dele subiram muito (saiu dos 18,20% para os 50,60%), já não tem recados na caderneta nem faltas disciplinares. 
Ele que estava em risco de chumbar de novo, já saiu da fase de risco!
Já subiu 5 notas nas disciplinas e, o melhor de tudo: Ele está motivado para a escola!!!
Está mesmo motivado, está (aos poucos) a deixar de mentir e a assumir os seus actos. 

Assim que as notas dele começaram a subir, cada vez que tinha um novo resultado nos testes, chegava a correr e completamente histérico à instituição a gritar "Belinhaaaa, Belinha, subi a nota a..."
Quando isso aconteceu, eu fiquei cheia de orgulho dele. Queria muito recompensá-lo pelo esforço, dar beijinhos e abraços mas sei que não poderia ser. Então dei-lhe os parabéns, disse que estava contente mas que as coisas não iriam mudar ainda, há muitas notas para aumentar. 

Há dias em que sou tão dura com eles que dói, saio do trabalho a duvidar dos métodos que tenho usado com eles. 
Pergunto-me se não estou a ser demasiado rígida com eles, se não estou a exagerar na forma como tenho agido, mas (e obrigada aos meus colegas) percebo que tem mesmo de ser. 
Eles precisam de estruturas, de regras e disciplina. 

Se quero ter uma actuação efectiva na vida deles, se quero que eles se desenvolvam de forma saudável, tenho de saber aliar o amor à disciplina. 

Cada vez mais, entendo que fui chamada para ser mãe deles. 
Uma mãe que ama, acarinha, ajuda, socorre e ampara mas também fui chamada para os disciplinar, corrigir e ser referência de autoridade. 
Uma mãe que busca ver o que há de melhor neles, os ensina a serem bons naquilo que são, conforme as suas personalidades, desenvolver o seu potencial e carácter. 

Eles já convivem comigo há tanto tempo que já sabem algumas das minhas frases e reacções de cor. 
Por exemplo, a minha expressão ao dizer "claro que sim, meu querido" ou "isto é espetacular" mas eles dizem com as minhas expressões faciais e entoações na voz. 

Outra coisa, todos eles sabem que eu detesto mentiras, estou sempre a dizer isso, e já os apanhei a aconselhar uns aos outros várias vezes "se eu fosse tu, dizia a verdade! Tu já sabes que a Belinha detesta mentiras", "tu sabes que a pior coisa que podes fazer à Belinha é mentir. Diz a verdade...". 
E a verdade é que eles estão, aos poucos, a deixar de mentir. Aos poucos...

Que alegria!!!

Tenho muito orgulho nos meus 40 e muitos filhos. Mesmo muito orgulho. 

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